From: Silvana Quintanilha
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Sent: terça-feira, 24 de novembro de 2009 10:47
To: Quintanilha Silvana
Subject: Fw: Visita indesejável – Para refletir.

http://www.eagora.org.br/arquivo/visita-indesejavel/

Visita indesejável

José
Serra, Folha de S. Paulo, 23/11/09

O mesmo
país que tentou oferecer segurança e consolo a vítimas do Holocausto estende
honras a quem banaliza o mal absoluto?

É DESCONFORTÁVEL
recebermos no Brasil o chefe de um regime ditatorial e repressivo. Afinal,
temos um passado recente de luta contra a ditadura e firmamos na Constituição
de 1988 os ideais de democracia e direitos humanos. Uma coisa são relações
diplomáticas com ditaduras, outra é hospedar em casa os seus chefes.

O presidente
Ahmadinejad, do Irã, acaba de ser reconduzido ao poder por eleições
notoriamente fraudulentas. A fraude foi tão ostensiva que dura até hoje no país
a onda de revolta desencadeada. Passados vários meses, os participantes de
protestos pacíficos são brutalizados por bandos fascistas que não hesitam em
assassinar manifestantes indefesos, como a jovem estudante que se tornou
símbolo mundial da resistência iraniana. Presos, torturados, sexualmente
violentados nas prisões, os opositores são condenados, alguns à morte, em
julgamentos monstros que lembram os processos estalinistas de Moscou.

Como reagiríamos se
apenas um décimo disso estivesse ocorrendo no Paraguai ou, digamos, em
Honduras, onde nos mostramos tão indignados ao condenar a destituição de um
presidente? Enquanto em Tegucigalpa nos negamos a aceitar o mínimo contacto com
o governo de fato, tem sentido receber de braços abertos o homem cujo ministro
da Defesa é procurado pela Interpol devido ao atentado ao centro comunitário
judaico em Buenos Aires, que causou em 1994 a morte de 85 pessoas?

A acusação nesse caso
não provém dos americanos ou israelenses. Foi por iniciativa do governo
argentino que o nome foi incluído na lista dos terroristas buscados pela
Justiça. Se Brasília tem dúvidas, por que não pergunta à nossa amiga, a
presidente Cristina Kirchner?

Democracia e direitos
humanos são indivisíveis e devem ser defendidos em qualquer parte do mundo. É
incoerente proceder como se esses valores perdessem importância na razão direta
do afastamento geográfico. Tampouco é admissível honrar os que deram a vida
para combater a ditadura no Brasil, na Argentina, no Chile e confratenizar-se
com os que torturam e condenam à morte os opositores no Irã. Com que autoridade
festejaremos em março de 2010 os 25 anos do fim da ditadura e do início da Nova
República?

O extremismo e o gosto
de provocação em Ahmadinejad o converteram no mais tristemente célebre negador
do Holocausto, o diabólico extermínio de milhões de seres humanos, crianças,
mulheres, velhos, apenas por serem judeus. Outros milhares foram massacrados
por serem ciganos, homossexuais e pessoas com deficiência. O Brasil se orgulha
de ter recebido muitos dos sobreviventes desse crime abominável, que não pode
ser esquecido nem perdoado, quanto menos negado. O mesmo país que tentou
oferecer um pouco de segurança e consolo a vítimas como Stefan Zweig e Anatol
Rosenfeld agora estende honras a alguém que usa seu cargo para banalizar o mal
absoluto?

As contradições não
param por aí. O Brasil aceitou o Tratado de Não Proliferação Nuclear e,
juntamente com a Argentina, firmou com a Agência Internacional de Energia
Atômica um acordo de salvaguardas que abre nossas instalações nucleares ao
escrutínio da ONU. Consolidou com isso suas credenciais de aspirante
responsável ao Conselho de Segurança e expoente no mundo de uma cultura de paz
ininterrupta há quase 140 anos com todos os vizinhos. Por que depreciar esse
patrimônio para abraçar o chefe de um governo contra o qual o Conselho de
Segurança cansou de aprovar resoluções não acatadas, exortando-o a deter suas
atividades de proliferação?

Enfim, trata-se da
indesejável visita de um símbolo da negação de tudo o que explica a projeção do
Brasil no mundo. Essa projeção provém não das ameaças de bombas ou da coação
econômica, que não praticamos, mas do exemplo de pacifismo e moderação, dos
valores de democracia, direitos humanos e tolerância encarnados em nossa
Constituição como a mais autêntica expressão da maneira de ser do povo
brasileiro.

JOSÉ SERRA, 67, economista, é o governador de São Paulo. Foi senador pelo
PSDB-SP (1995-2002) e ministro do Planejamento e da Saúde (governo Fernando
Henrique Cardoso) e prefeito de São Paulo (2005-2006).