From: JC Couto
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Sent: sábado, 28 de novembro de 2009 12:46
To: JC Couto (Yahoo!)
Subject:
Rachaduras no Paraíso

Uma reportagem interessante sobre a "maquiagem" e
a verdadeira identidade de Dubai.

JC Couto

Twitter : @jccoutobrasil

Rachaduras no paraíso

Com a crise, aparecem as primeiras fissuras e as paisagens menos cintilantes do templo do consumismo global.

JOHANN HARI

23456

A imagem sorridente do xeque Mohammed bin Rashid Al
Maktoum, o soberano de Dubai, aparece a cada dois arranha-céus do emirado. Ele
vendeu Dubai ao mundo como a cidade das Mil e Uma Luzes, uma Shangri-lá do
Oriente Médio protegida das tempestades de areia que assolam a região. Sua
imagem domina a silhueta que imita a de Manhattan, radiante entre as pirâmides
de vidro e os hotéis construídos em forma de moedas de ouro empilhadas. Lá está
ele, no prédio mais alto do mundo – uma agulha fina, invadindo o céu como
nenhuma outra construção humana na história.

É abril de 2009 e alguma coisa está mudando no sorriso do xeque Mohammed. Entre
os guindastes espalhados por toda parte, muitos estão paralisados, como que
perdidos no tempo, e há inúmeros canteiros de obras inacabados, num abandono
completo. Nas construções mais arrojadas – como o hotel Atlantis, o
pantagruélico castelo cor-de-rosa erguido numa ilha artificial em mil dias, ao
custo de 1,5 bilhão de dólares – o teto está caindo aos pedaços. Nessa Terra do
Nunca edificada num extremo do mundo, as rachaduras começam a aparecer. Dubai é
uma metáfora viva do mundo globalizado neoliberal que pode estar desmoronando.

A canadense Karen Andrews não consegue falar. Toda vez que começa a contar sua
história, abaixa a cabeça. Ela é magra e forte, com o esplendor embotado de
quem já foi rico. Suas roupas estão amarrotadas como a testa, enrugada.
Encontro-a no estacionamento de um dos hotéis mais chiques de Dubai, dentro de
um Range Rover. Karen dorme naquele carro e naquela garagem há meses, graças à
caridade dos funcionários bengaleses do estacionamento, que não tiveram coragem
de expulsá-la.

Ela chegou a Dubai quatro anos atrás. O marido tinha conseguido um bom emprego
numa multinacional. "Quando ele mencionou Dubai, logo rebati: ‘Não vou me
vestir de preto nem parar de beber.’ Mas ele me pediu uma chance", conta
Karen.

As apreensões da canadense desapareceram assim que o casal aterrissou no
emirado, em 2005. "Parecia uma Disneylândia para adultos, com o xeque
Mohammed no papel de Mickey", relembra. "A vida era fantástica.
Tínhamos um apartamento enorme, maravilhoso, um monte de serviçais, tudo livre
de impostos. A vida era uma festa." Não tardou muito e Daniel, o marido de
Karen, comprou dois imóveis.

Mas, pela primeira vez na vida, ele se embaralhou nas finanças. O casal acabou
se endividando e Karen começou a estranhar as confusões financeiras do marido.
Passado um ano, descobriu que Daniel tinha um tumor maligno no cérebro.

As dívidas cresceram. "Até então, eu não sabia nada a respeito das leis de
Dubai. Com todas essas grandes corporações se instalando no emirado, imaginei
que o sistema local deveria ser parecido com o do Canadá, ou o de qualquer
outra democracia liberal." Ninguém lhe havia contado que em Dubai não
existe o conceito de falência. Quem se endividar e não tiver como pagar vai
para a cadeia.

"Quando soubemos disso, sentei com Daniel e constatamos que precisávamos
ir embora daqui", prossegue Karen. O marido sabia que, se pedisse
demissão, poderia contar com uma indenização cujo valor bastaria para pagar as
dívidas. Mas ele acabou recebendo menos do que o previsto e a dívida não foi
saldada. Em Dubai, quando um funcionário larga o emprego, o empregador tem o
dever de comunicar o fato ao seu banco. Caso o funcionário tenha alguma dívida
em aberto, não coberta pelo seu saldo bancário, todas as suas contas são
automaticamente bloqueadas e ele fica proibido de sair do país.

"De repente, nossos cartões de crédito pararam de funcionar. Fomos
despejados do nosso apartamento e não tínhamos mais nada." Daniel foi
preso no dia do despejo, Karen ficou seis dias sem conseguir falar com o
marido, que acabou sendo condenado a seis meses de prisão diante de uma corte
que só falava árabe, sem tradução. "Agora estou aqui, sem nada, aguardando
que ele saia da prisão", explica a mulher do Range Rover. Com o olhar
perdido de constrangimento, ela me pergunta se posso lhe pagar o almoço.

O caso de Karen não é único. Por toda a cidade existem imigrados dormindo
clandestinamente nas dunas de areia, no aeroporto ou no próprio carro. "É
preciso entender que em Dubai nada é o que aparenta ser", resume a
canadense. "Você é atraído pela idéia de um lugar moderno, mas por trás
dessa fachada o que temos é uma ditadura medieval."

Trinta anos atrás, quase toda a área onde se ergue hoje o emirado de Dubai era
deserta, habitada somente por cactos, plantas e escorpiões. Tudo começou em
meados do século xviii, com a fundação de uma pequena vila ao sul do Golfo
Pérsico que atraiu mergulhadores em busca de pérolas. Em pouco tempo, a
população foi se tornando mais cosmopolita, com viajantes vindos da Pérsia, do
subcontinente indiano e de outros países árabes. Todos na esperança de
enriquecer. Batizaram a vila com o nome de um gafanhoto predador que reinava na
região, daba. Mas não tardou para a cidade ser dominada pelas Forças
Armadas do Império Britânico, e assim permaneceu até 1971. Quando os ingleses
bateram em retirada, Dubai se juntou a seis pequenos estados vizinhos e
formaram uma federação, os Emirados Árabes Unidos.

A retirada britânica coincidiu com a descoberta de generosos lençóis de
petróleo na região, e os xeques agora soberanos passaram a viver um dilema
singular. Eles eram, em grande parte, nômades analfabetos que haviam passado a
vida perambulando pelo deserto em cima de camelos. Agora tinham um pote de ouro
nas mãos. O que fazer?

Comparado ao vizinho emirado de Abu Dhabi, Dubai tinha pouco petróleo. Por
isso, o xeque Mohammed Al Maktoum decidiu investir na construção de algo que
durasse. Israel não se gabava de ter feito o deserto florescer? Al Maktoum
decidiu fazer o deserto enriquecer. Planejou construir uma cidade que se
tornasse o centro do turismo e de serviços financeiros, atraindo dinheiro e
profissionais do mundo inteiro. Convidou o mundo a seu paraíso fiscal – e o
mundo veio, esmagando os habitantes locais, que agora representam só 5% da
população total de Dubai. Em apenas três décadas uma cidade inteira surgiu do
nada. Um salto do século xviii para o século xxi em apenas uma geração.

Existem três Dubais diferentes, cada um girando em torno dos outros dois. Há os
expatriados ocidentais, como Karen, os árabes nativos ou dubaienses, liderados
pelo xeque Mohammed, e a mão de obra estrangeira, que construiu a cidade e ali
ficou presa. Essa última permanece invisível, apesar de estar por toda parte,
enfiada em uniformes azuis e seguindo um regime de trabalho forçado.

Todas as noites, os milhares de peões estrangeiros que constroem Dubai são
levados dos canteiros de obras para uma imensidão de concreto, em pleno
deserto, distante uma hora da cidade. Ali permanecem isolados. Até poucos anos
atrás, eles eram transportados em caminhões de gado, mas diante do desagrado
dos expatriados agora são levados em ônibus fechados, que funcionam como
estufas no calor do deserto. Todos suam como esponjas sendo espremidas.

Sonapur é uma cidade-dormitório de quilômetros e quilômetros de prédios de
concreto, todos idênticos. Em hindi o nome significa "cidade do
ouro". São cerca de 300 mil homens que moram amontoados. No primeiro
acampamento que visitei, logo fui cercado por moradores, ávidos para desabafar
com quem se dispusesse a ouvi-los. O lugar fede a esgoto e suor.

Sahinal Monir é um jovem magro, de 24 anos, vindo de Bangladesh. Quatro anos
atrás, um agenciador de mão de obra apareceu em seu vilarejo, anunciando que
havia um lugar, Dubai, em que se poderia ganhar 40 mil takas (o equivalente a
640 dólares) por mês, trabalhando das 9 às 17 horas no ramo da construção. Com
direito a acomodação decente, boa comida e outros cuidados. Bastava pagar
adiantado o equivalente a 3 700 dólares pelo visto de trabalho – a despesa
seria facilmente recuperada com os seis primeiros meses de serviço. Sahinal
vendeu o pedaço de terra da família, contraiu um empréstimo junto a um
comerciante local e seguiu rumo ao paraíso.

Assim que desembarcou no aeroporto de Dubai, teve o passaporte confiscado pela
empresa construtora. Nunca mais viu o documento. Comunicaram-lhe secamente que
trabalharia catorze horas por dia no calor do deserto (os turistas ocidentais
recebem a recomendação de não ficarem nem cinco minutos expostos ao sol, a
temperaturas que podem chegar a 55 ºC) – por menos de um quarto do salário
prometido. Se não estivesse satisfeito, acrescentou o contratante, poderia
voltar para casa. "Mas e o meu passaporte? Nem tenho dinheiro para a
passagem de volta", contestou Sahinal. "Então é melhor
trabalhar", foi a resposta.

Sahinal ficou em pânico.
Sua família – filho, filha, mulher e pais – esperava pela
remessa de dinheiro. Só que ele teria de trabalhar dois anos para pagar o custo
da viagem – e ganhar menos do que em Bangladesh.

Seu dormitório é pequeno. Beliches de três andares são compartilhados com
outros onze homens. Todos os seus pertences estão empilhados no beliche: três
camisas, uma calça extra e um celular. O quarto cheira mal porque os lavatórios
do acampamento – arcaicos buracos no chão – estão entupidos com excrementos e
cobertos por nuvens de mosquitos. Não há ar condicionado nem ventilador.
"A gente passa a noite suando e se coçando", disse. No alto verão,
dorme-se no chão, no telhado, em qualquer lugar onde se possa pegar uma pequena
brisa.

E o trabalho? "É o pior do mundo", diz Sahinal. "Temos que
carregar tijolos e blocos de cimento de 50 quilos num calor infernal. Você sua
tanto que fica sem urinar por dias ou semanas. É como se todo o líquido saísse
pela pele. Ficamos tontos e doentes, mas só podemos parar por uma hora, à
tarde. Se faltarmos ao trabalho por motivo de doença, somos descontados, e
ficaremos presos aqui por mais tempo."

Sahinal trabalha no 67º andar de uma reluzente torre em construção, ainda sem
nome. Nos quatro anos de sua estadia, jamais chegou a ver a Dubai sedutora dos
folhetos, apenas os andares que constrói. Pergunto se sente raiva. Ele fica
calado por um bom tempo. "Aqui ninguém manifesta sua raiva", disse.
"Se você a mostra, te mandam para a prisão e te deportam."

Indago se o grupo se arrepende de ter vindo. Todos olham para baixo. Depois de
um tempo, alguém rompe o silêncio: "Sinto saudade do meu país, da minha
família, da minha terra. Em Bangladesh, a terra dá frutos. Aqui, não dá para
plantar nada. Só tem petróleo e obras."

Com a atual recessão, dezenas de acampamentos ficaram sem energia elétrica, e
há quem não receba salário há meses. Muitas empresas saíram de Dubai sem sequer
devolver os passaportes aos contratados. Se Sahinal sumir em Dubai, talvez
ninguém note. Um cidadão inglês que trabalhou no setor de construção me disse:
"Ocorrem inúmeros suicídios nos acampamentos e nas obras, mas ninguém quer
tocar no assunto. Dizem que foi ‘acidente’."

Um estudo da ong Human Rights Watch revelou que existe um ocultamento da real
extensão das mortes causadas pela exposição ao calor, excesso de trabalho e os
suicídios. O consulado da Índia registrou 971 mortes de patrícios somente em
2005, mas depois da divulgação desse número a contagem parou de ser feita.

Na distância, a cintilante silhueta de Dubai, que Sahinal ajuda a construir, se
ergue indiferente.        

Os reluzentes centros comerciais de mármore se espalham por toda a cidade. O
calor é tão grande que não se vê ninguém nas calçadas. No interior dessas
catedrais, o tempo parece não passar. O dia tem sempre a mesma luminosidade
artificial, o mesmo piso brilhante, as mesmas grifes de luxo globais. Neles,
Dubai se reduz à sua essência: compras e mais compras. Nos shoppings mais
caros, onde circulo quase sozinho, me dizem que os negócios vão bem, obrigado.
Extraoficialmente, os vendedores parecem assustados. Passo por uma exposição de
chapéus que promove o Grande Prêmio de Turfe de 2009, com peças que custam 1
600 dólares. Entre um e outro shopping, não há nada além de asfalto. Todas as
ruas têm no mínimo quatro pistas. Andar a pé é coisa de suicida.

Como se sente o cidadão local diante da ocupação de seu país por estrangeiros?
Ao contrário do grupo de expatriados com dinheiro e da classe de trabalhadores
escravos, não é prudente sair perguntando essas coisas para dubaienses. Quando
abordados, as mulheres se calam e os homens se ofendem, respondendo secamente
que está tudo bem. Resolvi, então, navegar por blogs na internet e fiz contato
com vários jovens dos Emirados Árabes que me pareceram retratar o pensamento
local. Marcamos encontro num shopping center, é claro.

Ahmed Al Atar é um rapaz charmoso de 23 anos, barba aparada, túnica branca
feita sob medida e óculos finos retangulares. Fala um inglês impecável e
conhece Londres, Los Angeles e Paris melhor do que muitos ocidentais. Reclinado
numa cadeira de um café Starbucks, Ahmed proclama: "Esse é o melhor lugar
do mundo para um jovem! O governo paga seus estudos até o doutorado. Você ganha
um apartamento quando se casa e seu plano de saúde é gratuito. Você não paga
sequer a sua conta de telefone. Quase todo mundo aqui tem empregada, babá e
motorista. E não pagamos impostos. Você mesmo não gostaria de ter nascido
aqui?"

Ele se inclina para frente e prossegue: "Entenda: meu avô acordava cedo
todo dia e disputava o primeiro lugar na fila do poço. Quando o poço secava, a
água era distribuída por camelos. Todos viviam com fome, tinham sede e buscavam
trabalho. Meu avô mancou a vida inteira porque não havia tratamento médico
quando ele quebrou a perna. Agora, olhe só para nós!"

A maioria dos cidadãos locais, como Ahmed, é funcionário público. Por isso, são
poupados da recessão. "Os empregos aqui são seguros", disse ele.
"Você só é demitido se fizer alguma besteira muito grande." Ahmed
admite que a grande quantidade de expatriados possa, às vezes, "estragar"
a paisagem, "mas consideramos a sua vinda como o preço a pagar pelo
desenvolvimento. Não teríamos conseguido de outra forma. Ninguém quer voltar
aos tempos de deserto. Éramos como um país africano e agora temos uma renda per
capita de 120 mil dólares por ano. Do que reclamar?".

O jovem também não vê problemas na falta de liberdade política. "É muito
difícil encontrar um cidadão daqui que não apóie o xeque Mohammed. Ele é um
excelente líder. Garanto que minha vida é muito parecida com a sua",
conclui sorrindo, ao pedir outro caffè latte.

No estiloso Emirates Tower Hotel, encontro Sultan Al Qassemi, de 31 anos,
colunista da imprensa e colecionador de arte com fama de liberal e
contestatório. Sultan se veste com roupas ocidentais – jeans e camiseta Ralph Lauren
– e fala absurdamente rápido, arrolando argumentos.

"As pessoas daqui estão virando bebês obesos e preguiçosos", critica.
"Essa história de babá foi longe demais. Ninguém faz mais nada sozinho.
Por que ninguém trabalha no setor privado? Por que os pais não podem tomar
conta dos próprios filhos?"

Mas quando tento falar da mão de obra escrava que construiu Dubai, ele se
irrita. "O resto do mundo deveria nos dar mais crédito", sustenta
Sultan, "pois somos os seres mais tolerantes do planeta. Dubai é a única
cidade realmente internacional no mundo. Qualquer um que vem aqui é tratado com
respeito."

Os desolados acampamentos de Sonapur ficam a apenas alguns quilômetros dali.
Sultan não gosta do tema. "E os mexicanos não são maltratados em Nova York? Quanto tempo
demorou para os ingleses tratarem bem as pessoas? Eu também poderia ir a
Londres, escrever sobre os desabrigados de Oxford Street e manchar a imagem da
sua cidade! Os trabalhadores aqui podem ir embora quando quiserem, sejam
indianos ou asiáticos!"

Não é bem assim, contesto. O passaporte deles é confiscado e o salário, retido.
"É lamentável que isso ocorra, e os responsáveis deveriam ser punidos. Mas
os trabalhadores sempre podem recorrer a suas embaixadas." Pergunto por
que Dubai proíbe os trabalhadores de fazer greve contra os maus empregadores.
"Graças a Deus que proibimos!", responde, exaltado. "Somos
contra greves. Não queremos ser como a França. Imagine um país em que os
trabalhadores podem parar quando quiserem!"

Ao arrematar a discussão Sultan abranda o tom, sorri e diz: "Lendo as
críticas dos jornalistas ocidentais, me pergunto se vocês não percebem que
estão dando um tiro no próprio pé. O Oriente Médio será muito mais perigoso se
Dubai não der certo. Não exportamos petróleo, exportamos esperança. Os pobres
do Egito, da Líbia ou do Irã crescem dizendo que querem ir para Dubai. Estamos
mostrando como ser um país muçulmano moderno. Não temos fundamentalistas entre
nós. Os europeus não deveriam se alegrar com as nossas derrotas. Sabe o que vai
acontecer se esse modelo fracassar? Dubai vai virar um Irã, um país
islâmico."

Procuro outra vertente das minorias – o pequeno grupo de dissidentes que tenta
minar as leis abusivas dos xeques – e marco encontro com o inimigo público
número um do regime. Mohammed Al Mansoori, de túnica branca e rosto forte, dá o
tom a seu discurso: "Aqui não há liberdade. A família real acha que é dona
do país e que todos somos seus servos."

Mohammed nasceu em Dubai e aprendeu com o pai pescador a nunca seguir o rebanho,
a ter opiniões próprias. No início do desenvolvimento acelerado da cidade,
trabalhava como advogado. Foi diretor da Associação de Juristas, uma
organização criada para pressionar o Estado a aprovar leis condizentes com a
legislação internacional de direitos humanos. Até que um dia ultrapassou os
limites de tolerância do xeque. Inconformado com o que chama de "sistema
de escravidão", deu entrevistas para a Human Rights Watch e a bbc.

Não tardou a receber ameaças da polícia: se não se calasse, perderia o emprego
e seus filhos ficariam proibidos de trabalhar. Mohammed acabou perdendo sua
licença de advogado e confiscaram-lhe o passaporte. "Entrei para a lista
negra do regime, assim como meus filhos", disse. "Os jornais estão
proibidos de me citar."

Na década de 1930, na última vez em que Dubai passou por uma depressão econômica,
houve um simulacro de democracia no emirado. Os comerciantes se uniram contra o
xeque Said bin Maktum Al Maktum, soberano da época, e exigiram que lhes fosse
dado o controle das finanças do Estado. A experiência durou alguns anos, mas o
xeque varreu-os do mapa com o apoio dos ingleses.

Hoje, o emirado transformou-se numa "creditópolis" sustentada por
contas que não fecham, com 107% de seu pib comprometidos com dívidas a pagar.
Não fosse o socorro que recebe do vizinho Abu Dhabi, cujo solo esbanja
petróleo, Dubai já teria falido. "Agora é Abu Dhabi que dita o ritmo – e
eles são muito mais conservadores e fechados do que nós", explica
Mohammed. "Nossa liberdade de expressão tende a ficar ainda mais
restrita", acredita ele. De fato, já existe uma lei de imprensa que proíbe
os veículos de comunicação de divulgar qualquer notícia que possa
"prejudicar a imagem ou a economia" de Dubai.

O fundamentalismo islâmico é visto como outra ameaça. Todo imã, ou líder
religioso, passou a ser nomeado pelo governo e seus sermões são monitorados
para garantir o tom moderado. O próprio Mohammed se mostra preocupado:
"Ainda não temos um fundamentalismo islâmico ativo, mas se não tivermos
meios de nos expressar, ele poderá emergir. Uma população silenciada vai
calando, calando, até o dia em que explode."

Existe um grupo para o qual a retórica de liberdade e liberação repentina
parece verdadeira – justamente o grupo que o governo mais reluta em liberar: os
gays. Num famoso hotel internacional, entro numa boate gay, possivelmente a
única da península arábica. Lá dentro, uma coleção de braços fortes e camisas
sem manga se movimenta ao som de Kylie Minogue, com muito ecstasy e
badalação. Igualzinho ao Soho. "Dubai é o melhor lugar do mundo muçulmano
para os gays", diz um jovem árabe de 25 anos, cabelos espetados, abraçado
ao parceiro. "Estamos vivos. Podemos nos reunir. A maioria dos gays árabes
não pode fazer isso."

Ser gay é considerado crime em Dubai, com pena de dez anos de reclusão, mas os
endereços dos espaços clandestinos circulam livremente na internet, e a
frequência é alta. "Eles podem fechar a boate, mas não vai adiantar, vão
apenas nos dispersar", diz um frequentador. Saleh, um soldado raso do
Exército da Arábia Saudita, veio a Dubai para assistir a um show do Coldplay.
"Na Arábia Saudita é difícil ser adolescente heterossexual", explica.
"Devido ao confinamento das garotas a gente acaba tendo relações
homossexuais. No fundo, todos os gays árabes querem morar em Dubai."

Os guias turísticos costumam se referir ao emirado como multirracial e
multicultural. Percebo, contudo, que cada grupo tende a permanecer em seu
próprio enclave étnico, tornando-se uma caricatura de si mesmo. Basta adentrar
o Double Decker, um bar para expatriados ingleses. Na entrada, a inevitável
cabine de telefone vermelha e placas de trânsito londrinas. O interior de
madeira sugere um clube colonial dos tempos do Império Britânico, mesclado a
discoteca dos anos 80 com luzes estroboscópicas e música estridente.

Caminho em direção a duas senhoras de aproximadamente 60 anos que bebericam.
"Fica-se em Dubai pelo estilo de vida", explica uma delas,
convidando-me para me juntar à mesa e à bebida. Todos os expatriados ocidentais
falam em estilo de vida, mas quando perguntamos o que é isso, a resposta é
vaga. Ann Wark, uma das inglesas, tenta precisar: "Aqui, saímos toda
noite, o que jamais faríamos no nosso país. Encontramos pessoas diferentes o
tempo todo. Tempo livre é o que não falta porque temos empregadas e serviçais
para todo tipo de trabalho. Vivemos de festa em festa."

As duas moram em Dubai há vinte anos e explicam como a cidade funciona.
"Existe uma hierarquia", diz Ann. "No topo estão os árabes dos
emirados, seguidos pelos ingleses e outros ocidentais. Mais abaixo imagino que
venham os filipinos, por serem mais espertos que os indianos. Por último estão
os indianos e todo o resto."

Ambas admitem que jamais conversaram com quem está no topo da pirâmide. Nunca?
"Não. Os árabes dos emirados são muito reservados."

Mais tarde, num bar de hotel, conversei com uma americana que trabalha na
indústria de cosméticos e mantém distância dos expatriados típicos. "Quem
não conseguiu ter sucesso em seu país vem para Dubai. Nunca vi tanta gente
incompetente, ocupando cargos tão altos, em nenhum outro lugar do mundo",
diz ela. "Tornam o lugar racista. A filipina que trabalhava para mim
ganhava um quarto do salário de uma funcionária européia que exercia a mesma
função. Quem trabalha de fato não ganha quase nada, enquanto esses gerentes de
meia tigela ganham 63 600 dólares por mês."

Com exceção dessa americana, os expatriados ocidentais com quem conversei têm
um ponto em comum: a felicidade de ter à disposição uma mordomia inimaginável
em seus países. Em Dubai, ao contratar uma empregada, você passa a exercer um
poder quase absoluto sobre ela. Isso inclui reter seu passaporte, pagá-la
quando quiser, decidir se ela terá direito a férias, e quando. Como a maioria
dos empregados não fala árabe, as chances de escaparem dessa camisa de força
são escassas.

Existe um único albergue feminino, e ele está repleto de domésticas que
tentaram a fuga. Mela Matari, uma etíope de 25 anos e sorriso inseguro, me
conta sua história – tão semelhante à de milhares de outras. Mela ouvira falar
de Dubai por um agenciador, largou a filha de 4 anos e veio fazer seu
pé-de-meia. "Fui trabalhar com uma família australiana de quatro filhos.
Das seis da manhã à uma da madrugada, todos os dias, sem dia de folga. Eles não
me pagavam: diziam que iam acertar tudo no final de dois anos. O que eu podia
fazer? Eu não conhecia ninguém aqui. Fiquei apavorada."

Chegou o dia em que Mela,
depois de uma sessão de maus-tratos, largou tudo, saiu correndo para a rua e
perguntou, num inglês sofrível, onde era o consulado da Etiópia. Lá chegando,
foi informada que precisava retornar à casa da patroa australiana para buscar o
passaporte. "Não dava", conta apenas. Mela está no albergue há seis
meses. Falou com a filha duas vezes. "Perdi meu país, perdi minha filha,
perdi tudo", constata.

O arquipélago artificial The World, ainda em construção, que forma o
desenho do mapa-múndi, está vazio. Foi abandonado. De binóculo, consigo
vislumbrar uma ilha autônoma, infértil na brisa salina, que seria a "Inglaterra".
Foi aqui que os empreiteiros se propuseram a reconstruir o mundo. Criaram ilhas
artificiais na forma das massas terrestres do planeta, com planos de vender
cada "continente" como terreno para futuras edificações. Havia
rumores de que o casal Beckham compraria a "Inglaterra". Mas quem
trabalha próximo ao megaempreendimento conta que há meses não vê movimento na
obra. "O mundo acabou", diz um sul-africano, aproveitando o
trocadilho.

Por toda a cidade, projetos delirantes que antes estavam "em obras"
agora estão em ruínas.
Entre eles, uma praia com ar-condicionado e um sistema de
resfriamento da areia para os usuários não queimarem os pés no longo caminho
entre a toalha e o mar.

Os projetos concluídos um pouco antes da crise estão vazios e malconservados.
Quem não se lembra da inauguração do hotel Atlantis, no inverno passado, cujo
festão consumiu 20 milhões de dólares e atraiu celebridades como Robert De
Niro? Localizado numa ilha artificial em forma de palmeira, o hotel hoje parece
um imenso sorriso banguela. O saguão central é uma cúpula monumental coberta
com bolas cintilantes, sustentada por oito palmeiras de concreto. Bem no meio
há uma estrutura de vidro reluzente em forma de intestino. Mas chove lá dentro:
a água vaza do telhado e os azulejos estão caindo.

Uma sul-africana do departamento de relações públicas me mostra as suítes mais
cobiçadas do hotel, explicando ser esse "o lugar mais luxuoso do
mundo". Passamos por lojas que vendem anéis de diamante por 38 milhões de
dólares. Uma das atrações do Atlantis são seus mega-aquários de tubarões, que
nadam entre castelos e submarinos artificiais, submersos. O hotel tem mais de 1
500 suítes, todas com vista para o mar. Na suíte Netuno, de três andares, os
tubarões podem observar o hóspede deitado na cama. Coisas de Dubai.

Hospedado no hotel mais classudo da cidade, o Park Hyatt, sou o único cliente
no restaurante. Um dos atendentes me diz ao pé do ouvido: "Antes isso aqui
fervia. Agora não vem quase ninguém." Naquele lugar enorme, me sinto como
Jack Nicholson no filme O Iluminado, o último homem numa casa
abandonada e mal-assombrada.

O hotel mais celebrado do emirado – o grande ícone de Dubai – continua sendo o
Burj Al Arab, construído à beira-mar em forma de gigantesco veleiro de vidro.
No saguão, converso com um casal que mora e trabalha em Londres e visita a
cidade há dez anos. Eles adoram. "Tudo é uma surpresa", contam.
"Na última viagem, no início das férias, nossa janela dava para o mar. Mas
antes de partirmos, uma ilha inteira já havia sido erguida à nossa
frente."

Dubai não é apenas uma cidade vivendo além de seus recursos financeiros. O
emirado também vive além de seus recursos ecológicos. Vemos gramados bem
cuidados, com irrigadores espirrando água para todos os lados, turistas fazendo
fila para nadar com golfinhos, pistas de esqui com neve de verdade construídas
no interior de um shopping center, numa espécie de freezer do tamanho de uma
montanha. Só que estamos em pleno deserto, num lugar que não tem água. Como
isso é possível?

A própria terra está tentando repelir Dubai, secando e apagando a cidade do
mapa. O novo campo de golfe que leva o nome de Tiger Woods precisa de 15
milhões de litros de água por dia para irrigação. O lugar é regularmente
açoitado por tempestades de areia que enevoam o céu e escondem a linha do
horizonte. Quando a areia baixa, o calor aumenta, abrasando tudo o que não
estiver sendo constantemente irrigado. O dr. Mohammed Raouf, diretor de meio
ambiente do Gulf Research Centre, não parece muito otimista: "Estamos num
deserto e tentamos ignorar isso. Pura insensatez. Não dá para desafiar o
deserto."

O xeque Maktoum construiu sua cidade-vitrine em um lugar sem água potável e sem
água alguma, exceto a do mar. Ela conta com pouquíssimos reservatórios e acusa
um dos índices pluviométricos mais baixos do mundo. Ou seja, Dubai bebe o mar.
A água dos emirados, dessalinizada em fábricas espalhadas por todo o Golfo, é a
mais cara do planeta. Segundo o dr. Raouf, caso a recessão se transforme em
depressão, Dubai pode ficar desabastecida.

"Por enquanto, ainda temos reservas financeiras que pagam o transporte de
água para o meio do deserto", disse ele. "Mas se nossa renda diminuir
– se, por exemplo, o mundo encontrar outra fonte de energia além do petróleo,
enfrentaremos um grande problema. Seria uma catástrofe. Dubai tem água só para
uma semana." Apenas para sobreviver, um morador de Dubai necessita de três
vezes mais água do que a média mundial.

O aquecimento global, acrescenta o dr. Raouf, piora ainda mais a situação.
"Estamos construindo todas essas ilhas artificiais, mas se o nível do mar
subir afunda tudo. Os engenheiros sempre garantem que está tudo bem, que essa
possibilidade já foi prevista nos cálculos, mas não tenho tanta certeza
assim."

Procurei investigar como o governo lida com um problema ambiental que já existe
– a poluição das praias. Uma americana que trabalha num dos grandes hotéis
vinha denunciando a situação em vários fóruns na internet. Contatei-a para
marcarmos um encontro. "Não posso falar com o senhor", respondeu ao
telefone, secamente. "Poderíamos, talvez, conversar sem que o seu nome
seja citado", ponderei. Ela desligou o telefone na minha cara.

No dia seguinte, apareço no seu escritório. "Se o senhor revelar minha
identidade serei mandada embora no primeiro avião", me adverte, antes de
começarmos a caminhar pela orla. "As primeiras reclamações vieram de
hóspedes que voltavam da praia. A água lhes parecia suja, e alguns contraíram
doenças. Então escrevi para o ministro da Saúde e do Turismo, à espera de uma
providência – e nada. Escrevi de novo e fui entregar as cartas pessoalmente.
Nada."

Os hóspedes começaram a encontrar camisinhas, absorventes íntimos e até fezes
boiando no mar. O hotel contratou uma empresa especializada em analisar a
qualidade da água, e foi detectada uma enorme quantidade de coliformes fecais e
bactérias. "Passei a recomendar aos hóspedes que evitassem a praia, mas
todo mundo ficou revoltado – afinal, eles vieram passar férias aqui para
isso."

A americana decidiu postar as informações nos fóruns virtuais de expatriados –
e todos puderam entender o que estava acontecendo. Dubai havia crescido de
forma tão desordenada que sua rede de esgoto não conseguia mais dar vazão. Os
caminhões-tanque de coleta, obrigados a fazer fila durante três ou quatro dias
nas estações de tratamento, cansavam-se de esperar e simplesmente abriam
buracos no chão para jogar a água não tratada ali mesmo. Inexoravelmente, ela
acabava indo direto para o mar. Mesmo depois que as autoridades reconheceram o
problema, a qualidade não melhorou: a água ficou escura e fedorenta. "É
resultado dos produtos químicos", aposta a americana.

Na minha última noite no emirado, já a caminho do aeroporto, parei numa
pizzaria perdida em meio às autoestradas. O estabelecimento é idêntico ao Pizza
Hut perto lá de casa, em
Londres. Muitos dos produtos que consumo na Inglaterra também
são fabricados por pessoas em regime de semiescravidão só que a mais de 3 mil
quilômetros de distância. Aqui elas estão a 3 quilômetros de
proximidade, e às vezes nos esbarramos. Talvez seja por isso que Dubai me
incomoda tanto.

Pergunto à moça filipina do balcão se ela gosta do lugar. "Gosto",
diz ela, inicialmente. "Pois eu detesto", rebato. Ela concorda e
desabafa: "Demorei alguns meses para perceber que tudo aqui é falso. Tudo.
As palmeiras são falsas, os contratos de trabalho são falsos, as ilhas são
falsas, os sorrisos são falsos. Dubai é como uma miragem. Você acha que avistou
água, mas quando chega perto vê que é só areia."